Tuesday, February 15, 2011

Senti um vazio


Nota do encenador

“Um quarto só para si” título do livro de Virgínia Woolf serviria na perfeição como título deste espectáculo surgido de uma circunstância particular, uma encomenda da Associação Saúde em Português. Aliás todas as criações da Casa da Esquina surgiram de circunstâncias, de tangentes com criadores que por cá passaram e que tiveram de abandonar Coimbra, de magros apoios pontuais de quem vê a Cultura como um fardo.

A nossa estratégia foi e ainda é de sobrevivência, tal como Virgínia Wolf no seu quarto, tal como Dijana, personagem principal da peça “Senti um Vazio”, resistindo a tudo para continuar a existir, apoiando-se nos seus sonhos para não desistir.

É de sonhos que falamos nesta criação, os sonhados e os destruídos. Da esperança num futuro melhor que nunca chega.

Nas últimas criações andámos perdidos pelos espaços públicos a perceber como nos relacionamos uns com os outros, com o quotidiano, a cidade, a questionar o nosso modus operandi, a reflectir sobre o Nós (os fazedores) e os Outros (o público).

Mas desde o projecto AMIW (All My Independent Women 10) levado a cabo pelas nossas Carla Cruz e a Filipa Alves, que temos trabalhado sobre as questões de género, e nesta criação em concreto, sobre a exploração sexual e tráfico de mulheres.

Durante as pesquisas para o trabalho descobri a peça da Lucy Kirkwood, e passei-a à Helena Freitas, a actriz e pessoa certa para este trabalho, e assim, decidimos acolhe-la na nossa Casa.

Esta peça, que foi premiada com o Whiting Award , foi escrita ao fim de 2 anos de trabalhos de recolha de testemunhos de mulheres vítimas de tráfico sexual e que se encontravam em centros de detenção e foi levada à cena pelo Clean Break (http://www.cleanbreak.org.uk) no Arcola Theatre em 2009.

Quisemos contar esta história confrontando-a com o nosso espaço, um espaço não convencional, e é deste confronto que surge a experiência performativa, originado novas leituras sobre a estória de Dijana e a história que contamos, movendo-nos entre a sua realidade e os seus sonhos.

É um projecto intimista que permite ao público uma experiência próxima da pele, à medida que a personagem ganha consciência da sua realidade através da narrativa que desfia, narrativa comum a qualquer uma das numerosas histórias de vítimas de tráfico sexual. Não sabemos se é a vida que imita a arte.

É um projecto à nossa escala, pequeno, de trazer por Casa, que se agrega em torno de vontades individuais, para nos constituirmos e criarmos no aqui e agora, nestas circunstâncias. É assim que sabemos estar na Vida e na Arte. Não faço parte de um colectivo nunca o desejei. É essa a minha liberdade.

Ricardo Correia

Tuesday, February 1, 2011

Espectáculo "Senti um vazio" da Casa da Esquina

Sinopse

A história de Dijana é só mais uma entre as muitas que se repetem todos os dias por todo o mundo. Esta é a vida de uma rapariga vítima de tráfico humano numa viagem de um triste conto de fadas desde o seu apartamento- o seu quarto de trabalho- para a sua cela na prisão.
Dijana é uma bonita jovem que vem para Portugal à procura de uma vida melhor e é imediatamente vendida pelo seu primo ao sinistro Vlad, o qual se torna seu namorado e logo depois o seu chulo.
“Eu sei exactamente quanto é que eu valho”, diz Dijana,“ Eu valho mil euros que foi o que o Vlad pagou por mim. Mais ou menos dois I-Phones e meio”. Enquanto isso, faz as contas e espera poder um dia saldar a sua dívida e reaver o seu passaporte.
A peça escrita por Lucy Kirkwood não utiliza subterfúgios nem universos paralelos para explicar um flagelo que se repete todos os dias em todos os lugares e passível de acontecer a todas as mulheres que num país desconhecido tentam encontrar um futuro melhor.

De 19 a 26 de Fevereiro às 21h30
Local de apresentação: Casa da Esquina
Reservas a partir das 16h30: 239041397 / 92909062

Tuesday, December 28, 2010

Senti um Vazio - novo projecto

foto de Pilar Albarracín

O novo projecto da Casa da Esquina, pode acompanhar o projecto através do blog
Senti um Vazio.

Tuesday, November 16, 2010

Fotos dos Encontros de dramaturgia









































































© Filipa Alves, Encontros de Novas Dramaturgias contemporâneas, C84, São Luiz - 2010
Mais fotografias

Thursday, November 4, 2010

15 de novembro no são Luiz apareçam!


15 de Novembro

11h [Sala Principal ~ SLTM]
Práticas de escrita para a cena contemporânea portuguesa
seminário com Carlos Costa [Visões Úteis -Porto]

15h [Jardim de Inverno ~ SLTM]
Apresentação do projecto Encontros de Novas Dramaturgias Contemporâneas
com Aida Tavares, John Romão, Jorge Salavisa, Mickael de Oliveira e Rui
Pina Coelho.

15h30 [Jardim de Inverno ~ SLTM]
Do texto para palco ao palco como texto
Conferência de Bruno Tackels, seguida de conversa com Jorge Silva Melo

17h30 [Sala Principal ~ SLTM]
Sessentas-Setentas
Leitura performativa a partir de textos dramáticos portugueses escritos
antes da revolução e nos primeiros tempos da democracia
Direcção de Francisco Salgado com alunos da Escola Superior de Teatro
e Cinema [Lisboa]
Apoio Escola Superior de Teatro e Cinema

19h [Jardim de Inverno ~ SLTM]
Oitentas-noventas
Leitura performativa a partir de textos dramáticos portugueses pósrevolucionários
Direcção de Luís Mestre com alunos da Escola Profissional Balleteatro
[Porto]
Apoio Escola Profissional Balleteatro

21h30 [Foyer ~ SLTM]
Leituras Performativas dentro e fora do SLTM
com textos inéditos de A. DaSilva O., Alice Zeniter [FR], Cristián Soto
[CHI], Jorge Humberto Pereira, José Maria Vieira Mendes, Mickael de
Oliveira, Miguel Castro Caldas, Tiago Rodrigues, Ronan Chéneau [FR].

Direcção de Nuno M. Cardoso,
com Albano Jerónimo, Bruno Costa, Ísis
Cayatte, Joana Vale, João Abel, João Brite, Luísa Cruz, Ricardo Correia,
Rita Loureiro, Sandra Roque, Sílvia Almeida e Teresa Tavares.

Assistência de encenação de Marta Mateus e Marta Soares. Tradução do francês de
Alexandra Moreira da Silva e do castelhano (Chile) de John Romão.
Neste âmbito serão desenvolvidos percursos pelo que se aconselha calçado confortável e
roupa adequada ao exterior

23h30 [Café Fábulas ~ Chiado]
Bláblá com música de fundo, conversa informal à volta de um copo entre os
técnicos, artistas, autores, curiosos e noctívagos

Friday, October 8, 2010

A República acordou com ressaca


de Inês Nadais



O que aconteceu na Rotunda no 5 de Outubro de 1910, mais todo o século a seguir, até este Outono em que a melhor coisa que nos pode acontecer é o FMI: "República/s" é O Teatrão a olhar para este país cheio de dívidas e a perguntar o que é feito daquilo que íamos ser.

Temos andado a falar de muitas coisas, quando falamos da República, neste Outono em que ela faz cem anos e a melhor coisa que nos pode acontecer é o FMI, mas era bom que trocássemos ainda mais ideias sobre o assunto: aqui, nas "República/s" que O Teatrão ontem estreou na Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra, fala-se do "bandalho, pernicioso" do Afonso Costa ("Que te há-de um português chamar (...) ante o teu merecimento de insultos, ó hiper-tudo-isto?"), do dia em que o Visconde da Ribeira Brava virou a casaca, dos rapazes que fizeram a greve de 69 e agora estão a engordar no Parlamento (ou então se tornaram assessores), do Manuel Alegre enfiado no Mário Soares e até, bardamerda, do FMI ("O FMI é só um pretexto vosso, seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma").

Como estamos em Coimbra, além de se falar dessa República e dos cem anos que já tem em cima, também se fala das repúblicas (casas de estudantes) lá de casa - dessas Repúblicas dos Pequenitos que, como a República dos grandes, acordam ao meio-dia, de ressaca, cheias de dívidas "aos sociais" e de grandes dramas acerca do que é feito daquilo que íamos ser (tudo porque, enfim, poucas coisas nestes cem anos correram como deviam ter corrido, e ainda por cima acabou o gás). A ideia veio do encenador, o brasileiro Marco António Rodrigues, colaborador regular do Teatrão (montaram juntos "O Círculo de Giz Caucasiano", de Bertolt Brecht, em 2008, e em Dezembro vão montar a "Noite de Reis", de Shakespeare): "Há uns tempos atrás, o Ricardo [Correia] fez um espectáculo que percorria a cidade e passava por uma república. Eu achei que iconograficamente aquilo tinha uma força... Falei para eles: 'As repúblicas são uma coisa tão local, só têm um similar em Ouro Preto que é copiado daqui, vocês deviam pensar em cima disso'", explica.

Pensaram em várias coisas ao mesmo tempo: nos cem anos da Implantação da República (sobretudo a partir da versão, digamos, iconoclasta de Rui Ramos nesta última "História de Portugal", mas também da tradição satírica praticada nos tempos da I República, da caricatura à farsa sexual), na experiência comunitária das repúblicas de estudantes coimbrãs, em Aristófanes, no número televisivo dos "Homens da Luta" e nas inverosímeis peripécias recuperadas por Adelino Gomes e José Pedro Castanheira em "Os Dias Loucos do PREC", lembrete de como todas as revoluções portuguesas têm a sua veia tragicómica.

Esta, a revolução republicana, é particularmente dada à tragicomédia - e é por isso que o texto, que Jorge Louraço Figueira montou a partir de todas as fontes disponíveis e das contribuições dos actores, convidados a escrever cenas da peça, vai muito pela derrisão. Não havia outra maneira de fazer isto que não fosse cantando e rindo (mas cantando e rindo como forma de intervenção), justifica o encenador: "Vocês têm de rir disso, porque a tragédia já está instalada no quotidiano. Tem havido muitas perdas aí, pelo que percebo". Tal como na revolução republicana, tudo o que pode correr mal irá correr mal nesta república de raparigas, até à noite em que elas não chegarão a queimar o soutien na rua, em protesto, mas pelo menos irão tirá-lo.

Passado e presente

Não que a moral da história seja necessariamente má - há lugar aqui para algum revisionismo acerca da I República, mas também há simpatia por Machado dos Santos, o homem que ficou na Rotunda no 5 de Outubro de 1910, quando tudo parecia perdido, e até por todo o século que veio a seguir. "Talvez eu, por estar de fora, olhe para a história da República com mais interesse do que vocês. É uma grande luta, um século grande de 120 anos em que Portugal faz avanços enormes. É claro que o centenário chega numa altura sui generis, com o FMI a ameaçar vir outra vez e a União Europeia a tentar pôr-vos de joelhos. Mas isso não significa que o salto não tenha sido de gigante. Aliás, é na medida em que o Estado perde poder que os cidadãos podem recuperá-lo", argumenta Marco António Rodrigues.

Tal como o olhar sobre a República, também o olhar sobre as repúblicas, que de resto participaram activamente nas acções paralelas ao espectáculo que estiveram na rua até terça-feira, é ambivalente. "Ao mesmo tempo que têm coisas muito libertárias, têm outras que são muito conservadoras. Houve uma coisa que me impressionou muito, que foi o jantar: à noite todo o mundo está na mesa, todo o mundo janta junto. Isso também tem a ver com uma tradição muito própria de oralidade. Em todas as repúblicas que visitámos, todo o mundo quis contar histórias dos repúblicos que passaram por lá, dos repúblicos que ainda lá estão agora. Há realmente uma memória que é preservada. As repúblicas têm muito esse lado de estarem com um pé no passado, na tradição, e outro no presente", sublinha o encenador.

"República/s" também tem um pé de cada lado: isto é o que éramos, e é o que somos. Não somos um país brilhante, temos dívidas, dramas e o FMI a aterrar na Portela, mas ninguém faz isto com a nossa calma. Nem com tanta piada.

fotos do espectáculo